Se você recebe mais do que 5mil reais por mês pode comemorar: você faz parte dos 10% mais ricos do Brasil. São dados do IBGE 2018, que afirma que a média salarial do brasileiro é de R$754 mensais. Em contrapartida, o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), calcula que o salário mínimo, tomando como base o custo da cesta básica mais cara, deveria ser próximo de 4mil reais.

A desigualdade social persiste no país e é refletida em várias áreas. O saneamento básico é um exemplo disso. A falta dessa infraestrutura, que é uma ação fundamental para a saúde pública e para o meio ambiente, assola principalmente quem vive nas áreas rurais, em pequenas cidades e nas vilas e favelas das grandes cidades. Em resumo: aqueles que já possuem outras vulnerabilidades sociais também sofrem com a falta de saneamento básico.

Dentre os atrasos de infraestrutura do Brasil, o saneamento básico é o que encontra maiores dificuldades. Em 2017, mais da metade dos municípios do país não possuíam plano de saneamento. Os investimentos, por sua vez, retrocederam. De 2014 para 2018, os gastos com o setor reduziram 40%.

Para refletir um pouco mais sobre a relação entre desigualdade social e saneamento básico escrevemos este texto. Continue a leitura e aprenda!

Desigualdade: uma questão de raça e de área

mapa segregação racial e saneamento no Brasil

No mapa racial do Brasil, percebemos que as áreas onde moram negros e pardos são as que recebem menos investimento em saneamento

“O racismo é um urbanista que planeja e define espaços de morte e vida nas grandes cidades”. Essa é uma frase da urbanista Joice Berth que reflete sobre a segregação racial das grandes cidades brasileiras. Olhando para o mapa racial do Brasil, percebemos que as áreas que possuem menos investimentos públicos são as áreas com maior população de negros e pardos.

De acordo com o IBGE, em 2015 negros representavam três quartos da população pobre do país. Em contrapartida, somente 17% dos ricos se declararam negros. A probabilidade de negros e pardos viverem em condições precárias, ou seja, em casas sem acesso simultâneo a água, esgoto e coleta de lixo é muito maior, quando comparado a brancos. No levantamento do IBGE, em 2015, 55,3% dos lares negros possuíam saneamento, contra 71,9% dos lares brancos.

A segregação corrobora o que o filósofo camaronês, Achille Mbembe, chama de necropolítica. Nas reflexões de Mbembe, a necropolítica seria aquela que definiria quais vidas são válidas e quais não são. No ordenamento das vidas, aquelas merecedoras de validade, vivem protegidas e possuem todos os benefícios para o desenvolvimento saudável. As vidas sem validade, por sua vez, não são merecedoras de investimentos em saúde, moradia, por exemplo. Muito pelo contrário, os investimentos são para seu extermínio, por meio de polícias violentas e encarceramento em massa.

Os dados do IBGE também indicam uma inversão étnica da população com mais de 60 anos. Apenas 7,9% dos idosos se declaram negros. O número de pardos é de 35,3% e a quantidade de brancos é de 55,1%. Sem o recorte de idade, entretanto, a população negra é a maioria, com 54%. O que demonstra uma dificuldade de negros alcançarem longevidade no Brasil. Em outras palavras: um reflexo da falta de políticas de saneamento, saúde, escolarização para a população negra em conjunto com um avanço da violência contra os negros.

Talvez essa primeira parte do texto tenha trazido mais enforque a questões urbanas. Mas a segregação dos investimentos em saneamento é gritante quando comparamos áreas urbanas com áreas rurais. Siga a leitura para saber mais.

Saneamento urbano e rural: uma desigualdade de lucro

Atualmente a maior parte da população brasileira vive nas áreas urbanas. De acordo com o IBGE cerca de 85% das pessoas vivem em cidades no Brasil, contra 15% em áreas rurais. Para avançar na universalização do saneamento básico, entretanto, é necessário dedicar maior atenção às áreas rurais. Apenas 33,4% das casas nas áreas rurais são ligadas às redes de distribuição de água.

Como resultado, 67% dos domicílios utilizam fontes alternativas de água. Apenas 5,7% dos domicílios rurais possuem coleta de esgoto e 20,3% possuem fossa séptica. Nesse sentido grande parte dos domicílios destinam diretamente o esgoto tratado para rios, podendo gerar problemas ambientais e sanitários.

zona rural sem saneamento básico

Áreas rurais é onde há menos acesso a água tratada e a coleta de esgoto.

O problema, entretanto, está na negligência quanto aos investimentos nas zonas rurais. As áreas rurais possuem uma grande desvantagem no ponto de vista lucrativo para companhias de água e esgoto. Enquanto os custos para implantação de infraestrutura são altos, a quantidade de pessoas que vivem em áreas rurais é pequena, o que não compensa o investimento.

Nesse sentido, a população é dividida entre aqueles que podem pagar daqueles que não podem. O direito fundamental de acesso ao saneamento, nesse sentido, é violado.

Nossa conversa não para por aqui. No próximo domingo, por volta das 19h, no IGTV e no Facebook, iremos refletir sobre a cobertura de água e esgoto e politicas de saneamento com Elias Haddad Filho. Siga nossas redes sociais e até domingo!