Nesta quinta-feira (26/março), o presidente Jair Bolsonaro foi questionado se o Brasil não chegará à
situação dos Estados Unidos, que se tornou o país com o maior número de casos da doença Covid-19
no mundo (cerca de 140 mil), que já matou mais de duas mil pessoas no país. Sua resposta foi:
“Eu acho que não vai chegar a esse ponto [a situação dos Estados Unidos]. Até porque o brasileiro
tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá
certo? E não acontece nada com ele. Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil, há
poucas semanas ou meses, e ele já tem anticorpos que ajuda a não proliferar isso daí”(Portal G1).
Aproximadamente 100 milhões de brasileiros (cerca de 50% da população) não têm acesso ao
serviço de coleta de esgoto e apenas 46% do esgoto gerado no país é tratado (Sistema Nacional de
Informações sobre Saneamento – SNIS 2018). Como resultado, crianças brincam descalças em
quintais e ruas empoçadas com esgoto. As praias, rios e lagos usados para recreação e as fontes de
água usadas para abastecimento humano recebem esgoto in natura. Somado a isto, 35 milhões de
brasileiros não têm acesso a água tratada (SNIS 2018). Portanto, adotando a mesma figura de
linguagem usada pelo presidente, milhões de brasileiros “pulam” no esgoto diariamente e, pior ainda,
ingerem alimentos, bebem e tomam banho com água contaminada por esgoto.
As consequências desse quadro (ausência de esgotamento sanitário combinada ao reduzido acesso a
fontes seguras de água para uma enorme parcela da população) são nefastas. O país sofre com
frequentes endemias e epidemias de doenças de veiculação hídrica. Isto se deve ao fato do esgoto
apresentar elevadas quantidades e diversidade de organismos causadores de doenças, como vírus
(incluindo o novo coronavírus, causador da pandemia COVID-19, cuja transmissão pela água ou
esgoto ainda não está comprovada), bactérias, protozoários e helmintos. Doenças tipicamente
associadas à falta de saneamento básico podem causar diarreias agudas, vômito, meningite e
pneumonia. Frequentemente, faz-se necessária a internação hospitalar, com elevado custo aos
sistemas de saúde público e privado, e ocorrem óbitos, principalmente em crianças. Entre 2007 e
2017, foram registradas no país mais de 44 milhões de ocorrências por doenças diarreicas agudas. No
mesmo período, mais de 5 mil brasileiros morreram devido a complicações causadas por
esquistossomose, doença transmitida por contato com água contaminada (Departamento de
Informática do Sistema Único de Saúde – DATASUS). Estima-se que o ônus econômico anual
somente da esquistossomose no Brasil seja da ordem de US$ 41,7 milhões (revista Memórias do
Instituto Oswaldo Cruz, 01/2019). As bases de dados disponíveis são imperfeitas e casos ficam sem
registro. Portanto, o número de brasileiros que adoecem ou vêm a óbito devido à falta de acesso ao
saneamento básico deve ser ainda maior.
Portanto, seria um desperdício de esforço e dinheiro públicos estudar o brasileiro por sua suposta
imunidade às doenças causadas pelo contato com esgoto. A falta de saneamento básico é um dos
principais entraves ao pleno desenvolvimento do país e não deveria ser motivo de piada. Melhor seria
tratar o assunto com a devida seriedade e investir em ações voltadas à universalização do acesso
adequado à água e ao esgotamento sanitário em todo o País, cumprindo a determinação da ONU, que
reconhece o acesso à água potável e ao saneamento básico como direitos humanos, e que portanto
devem estar disponíveis e acessíveis a todos os indivíduos.

Texto por: Carlos Chernicharo, César Mota & Juliana Araújo (Coordenação do INCT ETEs Sustentáveis)

Data da nota: 27/03/2020