Antes de começar a explicar o que é racismo ambiental peço para que você faça um exercício. Tente imaginar para onde vai o lixo da sua cidade. É em um bairro de pessoas ricas ou pobres? É um local que possui infraestrutura, como ruas, calçadas, energia e água? Se ficou difícil de você imaginar para onde vai o lixo da sua cidade, irei dificultar ainda mais. Agora, tente imaginar para onde vai o lixo da cidade do Rio de Janeiro, de São Paulo. Muito certamente não imaginou que o lixo carioca vai para Copacabana, nem que o lixo paulistano vai para Higienópolis.

Se nos bairros nobres já é uma polêmica  instalar estações de metrô, imagine se fosse para destinar os resíduos sólidos? Entretanto, toda população gera resíduos que precisam ser administrados de alguma forma e em algum local. Muitas vezes o local onde são escolhidos para se destinar o lixo, ou fazer sua gestão, são locais afastados das áreas mais urbanizadas e longe dos pontos turísticos.

Não estou indicando, entretanto, que o Cristo Redentor seja o novo ponto de coleta de lixo da capital fluminense, nem que o MASP se torne um centro de reciclagem. O ponto é que ao escolher a destinação para o lixo, muito raramente pensamos em quem habita esse lugar.

Há esta mesma questão com o destino dos esgotos sanitários. A tecnologia utilizada pressupõe uma central de recepção desses esgotos, chamada de estação de tratamento de esgotos – ETE, e que também incomoda aos seus vizinhos, que, em geral, não são consultados sobre a instalação deste grande equipamento.

O texto do blog de hoje aborda esse tema. Continue a leitura e entenda o que é racismo ambiental.

menina negra no lixão sofre racismo

Os lixos não são destinados a locais nobres da cidade e muitas vezes não é considerada as pessoas impactadas para onde vai o lixo.

Racismo não é assunto de minoria

Infelizmente não é muito incomum encontrar pessoas que desmereçam o movimento negro na internet. Geralmente essas pessoas costumam dizer que se trata de um “mimimi”, na tentativa de minimizar as reivindicações do movimento. É comum ainda ouvir a classificação de que se trata de um movimento de “minorias”.

Entretanto, no Brasil mais da metade da população se declara negra, 54% de acordo com o IBGE de 2014. Historicamente, essa população tem sido cerceada de alguns direitos e tem de vencer vários desafios para obtenção de terras e acesso ao mercado formal de trabalho.

Atualmente, 78% dos mais pobres são negros e apenas 15% dos mais ricos são negros. A desigualdade social no Brasil tem cor e possui uma segregação espacial. Locais onde há maior população negra, comumente são locais mais pobres, onde há menos investimentos em saneamento básico e muitas vezes áreas negligenciadas pelo Estado.

esgoto a céu aberto e família negra

Periferias são os locais mais afetados pela falta de saneamento básico.

A questão da segregação espacial da população é crucial para entender o que é racismo ambiental. Mas antes de explicarmos esse conceito, é importante entender quem mais sofre com ele. Continue a leitura.

Quem são os negros?

Algumas campanhas contra o racismo já utilizaram como estratégia a coletivização do dano. No molde “todos somos macacos”, ou “a luta não é só dos negros”. Entretanto, não marcar os sujeitos que sofrem essas injúrias dificulta ainda mais o combate a elas e apaga alguns marcadores da violência.

Nesse sentido, é muito importante um Dia da consciência negra (comemorado dia 20 de novembro). Um dia para, de fato, termos consciência das violências e opressões sofridas pelos negros. Isso quer dizer que não são todos que são chamados de macaco, são só aqueles que ainda precisam lutar para serem reconhecidos como humanos.

Para se ter uma ideia de como isso opera trarei um exemplo da nossa história. Já no período colonial brasileiro era percebido que nossos dejetos poderiam trazer riscos à saúde e por isso eram destinados a um local afastado. Entretanto, quem era responsável por fazer o transporte desses dejetos eram justamente negros escravizados, os chamados escravos tigres.

Além de não perceberem que a saúde dessas pessoas era importante o simples fato de serem escravizados demonstra que são considerados menos humanosou até não humanos. É fato que a escravidão existiu em diversas culturas (não só na ocidental), porém em todas elas podemos perceber que os escravos eram considerados seres inferiores. Não escravizamos quem consideramos que são iguais a nós, se não nós mesmos deveríamos ser escravizados. É numa marcação forte de hierarquia e inferiorização que surge a escravidão.

jogador sofrendo racismo

Jogador Taison se revolta contra o racismo na Ucrânia.

Dessa forma percebemos que muitas vezes a luta pelos direitos humanos passa também por uma luta por ser reconhecido como ser humanos. Um dos exemplos de violação desse direito é justamente a falta de saneamento para essas populações. Com isso chegamos ao próximo tópico. Siga a leitura e entenda a relação do Racismo Ambiental e a falta de saneamento.

Racismo ambiental e saneamento básico

“Racismo ambiental é a discriminação racial nas políticas ambientais. É discriminação racial na escolha deliberada de comunidades pobres, [que no Brasil são majoritariamente negras] para depositar rejeitos tóxicos e instalar indústrias poluidoras. É discriminação racial sancionar oficialmente a presença de venenos e poluentes que ameaçam as vidas nas comunidades negras e pobres. E discriminação racial é excluir as pessoas negras, historicamente, dos principais grupos ambientalistas, dos comitês de decisão, das comissões e das instâncias regulamentadoras” afirma Benjamim Chavis, o primeiro a empregar o termo.

O termo surgiu após lideranças do movimento negro dos Estados Unidos perceberem uma constância na destinação de resíduos (às vezes até mesmo tóxicos) a locais onde habitavam comunidades negras ou indígenas. Muitas vezes essas comunidades eram desconsideradas dessas decisões e eram negligenciadas de outros investimentos públicos.

Mas para além de destinar os resíduos a comunidades menos favorecidas é também perceber como legítimo que algumas pessoas vivam em situações precárias e desumanas. É simplesmente desconsiderar a necessidade de fornecer água para comunidades pobres pelo simples fato delas não conseguirem pagar. AFINAL, ÁGUA E SANEAMENTO SÃO DIREITOS HUMANOS, NÃO SÃO MERCADORIAS.

Quando analisamos os motivos para o saneamento no Brasil ser tão atrasado percebemos que a falta de planejamento é um forte fator. Isso porque as cidades brasileiras foram crescendo de forma desordenada e populações menos favorecidas se viram forçadas a ocuparem locais com pouca ou nenhuma infraestrutura. Somado a isso, o Brasil é um dos países com maior concentração de terras na mãos de poucos donos.

prédios sofisticados contrastam com casa pobre e rio que recebe esgoto

O racismo no Brasil também pode ser percebido por meio de uma segregação espacial.

Nessa falta de planejamento a coleta e tratamento de esgoto não foi motivo de preocupação e com isso mais da metade do esgoto gerado no Brasil não é sequer coletado, que dirá tratado. Quem mais sofre com essa falta são justamente essas pessoas menos favorecidas, que habitam locais com esgoto a céu aberto ou próximas a rios poluídos.

O racismo ambiental também está no fato de os indígenas serem a população mais negligenciada das políticas de saneamento. Em outras palavras é desconsiderar o acesso a recursos e serviços que são básicos para vida humana e também imprescindíveis para o desenvolvimento humano. Com isso, é cercear uma parcela da população a condição de humanos, por considerar aqueles que possuem recursos superiores aos que não possuem.

A conversa de hoje não para por aqui. Falaremos sobre saneamento em comunidades periféricas no próximo vídeo do nosso IGTV e Facebook, que irá ao ar por volta das 19h do próximo domingo. Siga nossasredes sociais e fique por dentro do assunto!

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A fata de saneamento não atinge todos os Brasileiros da mesma forma. Assista ao vídeo de @_uende_ e entenda quem são os mais atingidos e o que acontece com eles. Conheça o projeto SanBas da professora Uende Aparecida: https://sanbas.eng.ufmg.br/ https://infosanbas.org.br/ Leia também o texto sobre Racismo Ambiental no blog do INCT📲etes-sustentaveis.org/?p=4072 Informe-se sobre a cobertura de água e esgoto e política de saneamento no vídeo: ▶ http://bit.ly/2QTmCob Conheça mais sobre Saneamento em Comunidades indígenas nesse vídeo: ▶ http://bit.ly/2rlUZZP E veja a relação entre Saneamento e Direitos Humanos: ▶ http://bit.ly/379Y28e Em breve divulgaremos mais informações sobre os projetos da professora Uende. Curta, compartilhe e comente esse vídeo. 😉 . . . #saneamento #racismo #conciencianegra #engenharia #meioambiente #sustentabilidade #saude #desigualdade

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